“Ecomuseus e paisagens culturais” – Carta de cooperação de Milão 2016

Nossa visão comum (2016)

Nós, ecomuseus e museus comunitários, reunidos em Milão no âmbito da Conferencia Geral ICOM 2016 sobre o tema “Museus e paisagens culturais” reconhecemos que:

  • A nova museologia e a ecomuseologia são conceitos em constante evolução, portanto a prática varia de um projeto a outro. Não é possível adotar uma definição normativa única, adaptada a todos os contextos. Nós observamos com um vivo interesse o manifesto “estratégico” adotado pelos ecomuseus italianos[1], que estão eles mesmos em vias de revisão e de aprofundamento.
  • Os ecomuseus se consideram eles mesmos como processos participativos que reconhecem, gerem e protegem o patrimônio local a fim de favorecer o desenvolvimento social, ambiental, e econômico de maneira sustentável.
  • Eles são projetos originais graças aos quais podem ser associadas as técnicas, as produções e os recursos de um território homogêneo de maneira a integrá-los ao patrimônio cultural local.
  • Eles desenvolvem práticas criativas e inclusivas visando ao crescimento cultural das comunidades locais baseados na participação ativa das pessoas e sob a cooperação das organizações e das associações.

Nosso engajamento e nossas responsabilidades

Durante os trabalhos do Fórum dos ecomuseus e museus comunitários, que ocorreram no âmbito da Conferencia geral do ICOM 2016, nós discutimos e compartilhamos nossos engajamentos e nossas responsabilidades[2]2.

Nós escolhemos, entre as comunicações e os debates do Fórum, alguns elementos que refletiam a experiência dos participantes e que deveriam levar contribuições para o conhecimento sobre os ecomuseus e museus comunitários e seus parceiros e associados através do mundo.

  1. O ecomuseu e o museu comunitário

É um projeto e um processo de desenvolvimento local que combina os recursos humanos e patrimoniais de um território determinado. Ele participa do mundo dos museus como como também do mundo dos monumentos e dos sítios.

O ecomuseu acompanha o mundo tal como ele é e prepara o mundo que está por vir, utilizando o patrimônio vivo comum do local que ele gera e enriquece a partir de seus componentes materiais e imateriais.

O ecomuseu é uma rede de atores locais; ele colabora com as outras instituições públicas e privadas que trabalham para o desenvolvimento social, cultural, e econômico e em favor do bem estar da comunidade.

A ecomuseologia é um movimento que engloba todas as dimensões da sociedade e do desenvolvimento: geografia, cultura, sociologia, educação, urbanização, economia. Ela deve ser reconhecida como tal em todos os níveis de decisão política e administrativa.

Em numerosos países, existem as associações, as federações ou as redes de ecomuseus ou de museus comunitários. Elas trabalham para o reconhecimento do movimento, para a solidariedade entre seus membros, para a formação de voluntários e profissionais, para o intercâmbio com outros países.

Ela é considerada essencial para realizar esforços, em nível regional, nacional e internacional, para criar programas de formação destinados aos profissionais, aos voluntários e às autoridades públicas, visando uma melhor gestão do patrimônio comum e da paisagem cultural segundo valores e princípios da ecomuseologia.

Ela é também considerada como particularmente importante para o reconhecimento do movimento ecomuseal, no qual esforços tem sido feitos para desenvolver uma literatura ecomuseológica facilmente acessível internacionalmente e baseada, não somente sobre a pesquisa acadêmica mais também sobre relatórios, avaliações e monografias redigidas por profissionais e praticantes no campo. As práticas dos ecomuseus e dos museus comunitários deveriam ser documentadas pelos praticantes eles mesmos.

Enquetes comparativas e críticas e estudos deveriam ser feitos sobre as estruturas organizacionais (governança) adotadas pelos ecomuseus ou museus comunitários e sobre o impacto efetivo dessas instituições sobre o bem estar das sociedades concernentes e sobre o desenvolvimento sustentável.

  1. A paisagem cultural

O território e o patrimônio que ele contém formam a paisagem. Essa paisagem, de acordo com a definição do artigo 1 da Convenção Européia da Paisagem (Florença 2000) é uma construção cultural:

«Paisagem designa uma parte do território tal como percebida pelas populações cuja característica resulta da ação de fatores naturais e ou humanos e de sua interrelação. “

Segundo essa definição, a comunidade de habitantes et seus membros, antigos e atuais, são responsáveis coletivamente e mutuamente pela paisagem, por sua proteção, sua transformação e seu conhecimento. O ecomuseu é o melhor instrumento para a mobilização e a educação da população, pela observação atenta e cuidadosa da paisagem, por realizar a mediação junto aos visitantes do território, porque ele é capaz de compreender todos os componentes da paisagem natural ou cultural, tangível ou intangível.

Sobre esse plano, o ecomuseu coopera com os museus, os monumentos, os sítios como também com outros atires da proteção do patrimônio. Ele lhes aporta sua experiência e seu saber no domínio da gestão do patrimônio vivo e da paisagem dos territórios. Ele pode assim assumir a reponsabilidade de um observatório da paisagem ou de uma Agenda 21 local.

Nossa resposta : a Carta de cooperação

A partir desta visão comum, nós relevamos esses desafios e aceitamos nossas responsabilidades. Nós adotamos a Carta de Cooperação como uma etapa significativa entre uma fase de programação e uma fase de realização, a fim de orientar as ações de cada um de nós em direção aos objetivos compartilhados.

1) O Fórum tomou para si as convenções européias de Florença[3] e de Faro[4] a Resolução do ICOM sobre a responsabilidade dos museus sobre a paisagem, aprovada pela Assembléia geral do ICOM resultante de sua 24ª Conferencia geral[5], assim como a Carta ICOM de Siena[6] e a Declaração ICOMOS do Québec[7].

2) Nós nos consideramos capazes de ser uma interface entre o mundo dos museus (ICOM) e o dos monumentos e sítios (ICOMOS). Nós procuramos estar associados às atividades dessas duas organizações e de suas estruturas especializadas, em razão de nossa expertise no domínio da gestão participativa do patrimônio vivo e da paisagem em nível local.

3) Nós manteremos relações estreitas com os comitês internacionais do ICOM (ICOFOM, ICMU…), com o Comitê científico internacional de paisagens culturais do ICOMOS e com as ONG’s internacionais e nacionais nos domínios da antropologia e do turismo responsável ou sustentável.

4) Nós estabeleceremos uma Plataforma internacional, virtual e interativa para os intercâmbios e o compartilhamento de experiências. Uma tal plataforma religará as redes nacionais dos ecomuseus e museus comunitários existentes ou que serão criados e todos os ecomuseus; ela será estendida às outras ONG’s do patrimônio e da paisagem. Ela constituirá um polo internacional de recursos documentais e bibliográficos sobre a ecomuseologia e suas boas práticas.

5) Nós criamos um Grupo de trabalho internacional permanente para assegurar uma observação atenta e para fazer proposições sobre o tema território-patrimônio-paisagem.

6) Nós adotamos esta Carta de Cooperação como um recurso evolutivo a partir da qual nós escolheremos as prioridades adaptadas ao momento, às situações e às necessidades que por sua vez levarão em conta o impacto global de nossas atividades, de acordo com as autoridades e com o papel de cada um dentre nós. Nós seguiremos o processo colaborativo visando identificar os objetivos específicos, os recursos e os prazos necessários para verificar o progresso em sua realização.

7) Nós pensamos que os projetos de cooperação bilateral, multilateral ou regional ( entendendo com isso as diferentes regiões do mundo) que foram anunciados ou formados durante o Fórum dos ecomuseus e museus comunitários são o melhor meio de reforçar a unidade do movimento ecomuseal , de assegurar a visibilidade e de suscitar a compreensão e a colaboração entre os ecomuseus e os museus comunitários.

8) Nós nos engajamos para sustentar nossos projetos por meio de um reforço de cooperação.

9) Nós acompanharemos alguns projetos particularmente interessantes, com as partes que os compõem e identificando as oportunidades e os meios de financiamento disponíveis.

ANEXOS

PROJETOS RECOLHIDOS NO ENCERRAMENTO DO FORUM

  • Programa EU-LAC (www.eulacmuseums.net ).
  • Inventários participativos do patrimônio local (exemplo: declaração de comunidades (exemplo: parishmaps, mapa de comunidade, declaração de paisagens)
  • Museologia endógena dentro das comunidades indígenas
  • Programas de avaliação em nível nacional ou regional
  • Resumo de boas práticas
  • Ecomuseus e cultura sustentável
  • Intercâmbios e cooperação com o ICOM, ICOMOS e as ONG’s sobre paisagem a paisagem cultural
  • Jornadas da paisagem (dia da convenção europeia da paisagem)
  • Educação, formação em cooperação direcionada às novas gerações.

CONTRIBUIÇÃO A 24ª CONFERENCIA GENERAL DO ICOM, DA PARTE DO FORUM DOS ECOMUSEUS E MUSEUS COMUNITARIOS – Milão, 7 julho 2016

a) Os ecomuseus e os museus comunitários são a paisagem. Eles sempre foram a paisagem depois que eles nasceram, porque eles trabalham com o patrimônio difuso e vivo, material e imaterial.

b) Depois de seu nascimento, ele escolheram uma abordagem transdisciplinar, experimentado e testado na vida real. Essa abordagem inovadora inspirou os museus mais tradicionais e as instituições em todos os níveis.

c) Em um mundo que é cada vez mais consciente da importância, da responsabilidade, da participação e da globalização da gestão sustentável do patrimônio, os ecomuseus podem exercer um papel chave, graças à sua experiência fundada na prática.

d) Os ecomuseus existem no mundo inteiro. Eles estão prontos à cooperar com os museus de nível local, nacional, ou global para destacar as novas questões em jogo, que apareceram nos debates da 24ª Assembleia geral sobre os museus e as paisagens culturais.

[1]http://www.ecomusei.eu/ecomusei/wp-content/uploads/2016/01/Strategic-document.pdf

[2]http://www.ecomusei.eu/ecomusei/wp-content/uploads/2016/06/programme-ICOM2016-PT.pdf

[3]https://rm.coe.int/CoERMPublicCommonSearchServices/DisplayDCTMContent? documentId=09000016802f3fb7

[4] https://rm.coe.int/CoERMPublicCommonSearchServices/DisplayDCTMContent? documentId=0900001680083746

[5] http://icom.museum/the-governance/general-assembly/resolutions-adopted-by-icoms-general-assemblies-1946-to-date/milan-2016/

[6] http://icom.museum/uploads/media/Carta_di_Siena_EN_final.pdf

[7] http://whc.unesco.org/uploads/activities/documents/activity-646-2.pdf