Comunicação Participada

Este artigo é um esboço em construção duma reflexão sobre processos comunicativos participados.

  1. comunicação e saber

A vida criou a capacidades de interpretar a realidade exterior ao corpo dos seres vivos, como forma de garantir a sua sobrevivência. As interpretações da realidade exterior resultam de interações efetuadas por cada ser vivo ao longo da sua história. Constituem-se assim dossiers, mais ou menos organizados em função da complexidade interna do indiduo e do ser. Estas cartas de relações que cada ser vivo transporta como experiencia da sua existência, são registos das atividades do passado, e constituem-se como recursos disponíveis para desenvolver toda a atividade do seu presente, para planear as suas interações. A memória corporal, registada no corpo e na mente do ser vivo é o que permite a emergência da “intencionalidade”.

O que distingue as populações umas das outras, o que lhes confere unidade e coesão, o que as identifica como “comunidades” é o instrumento comum que elas dispõem para comunicar no seu contexto próprio. Assim, para comunidades complexas, que necessitam dum quadro de comunicação interna complexa, como é o caso das sociedades humanas, as linguagens são complexas e sofisticadas. Existem ou foram desenvolvidos meios de registar que permitem ampliar as representações do seu passado e as suas vontades de futuro.

Mas a linguagem, não é apenas um modo elaborado de comunicação. Ela é também o produto de um método de pensar, de conhecer e de interagir no meio.

O conhecimento aparece então como o resultado da comunicação estabelecida com o mundo exterior. O conhecimento constitui-se como representações da realidade organizados na forma de blocos de relações que os indivíduos e grupos estabelecem no curso da sua atividade. A estas relações entre os sujeitos (representações de si e do seu corpo; representações dos outros ; e representações específicas do mundo exterior (contexto), às quais são atribuídas significações (representações em forma de Ideias) sob a forma de nomes (conceitos). Estas significações são sempre solidárias, isto é não só dependem dos contexos de onde emergem, como dependem do conjunto de normas e crenças (biliefs) que cada individuo cada sociedade desenvolve.

Então, a comunicação humana pode ser entendida como uma atividade que tem como propósito reconhecer as relações entre os seres humanos.

Ora estas relações, ou já existem no quadro do recetor da comunicação, e são reconhecidas, como lembranças de significados; ou elas não são reconhecidas, o que pode dar origem a uma situação de busca da atribuição de uma nova significação por parte do recetor.

Comunicar constitui-se assim como um processo criado no quadro duma memória dum recetor, que em face dum dado descritor, catalisa a significação duma relação pré-existente no emissor. É um procedimento que leva a uma cópia de significações de relações.

É poi isso que é necessário pensar num quadro de referências comuns entre os interlocutores. Em outros termos, a linguagem apenas existe quando hà uma partilha de significações.

Ora, a partir desta relação, é também possível pensar no processo criativo como uma processo de autocomunicação. Ou seja, a parti do bloco de significados partilhado, de relações já pré-existentes, são propostas relações inéditas, que podem ser, por seu lado, conjuturalmente descritas como novas relações que potencialmente podem ter poder de transformação sobre as significações.

A linguagem verbal é neste domínio, particularmente eficaz. O processo da atribuir nomes (significações de percpções) é muito mais fácil e intuitiva do que o uso de palavras. E pelos viés de metáforas, é fácil de atribuir novas significações. A aceitação social das metáforas através do seu usa nas linguagem corrente, traduz o processo de adequação á realidade social. A metáfora pode transformar-se nu conceito.

A utilização e a construção de novas palavras não ultrapassam facilmente os limites quantitativos inerentes à comunicação sensorial com o exterior. É um facto que corresponde ao processo de evolução (por seleção) também ao processo criativo que pode ser acelerado, por incremento da assimilação ou da aprendizagem (assimilação) através dos processos de socialização ou “encontro”.

E o que sucede ao nível do individuo, pode também ser facilmente transposto para o domínio coletivo. A comunidade, enquanto comunidade de comunicação, também tem acesso a processos de comunicação, através dos quais se vão processando as relações existentes entre os membros da comunidades, produzindo, simultaneamente regularidades e transformações. Processos que se vão ampliando na sociedade.

Então, entre as sociedades humanas, comunicar é sempre um ato de conhecimento. Um conhecimento que se forma através de significações (relações) entre sujeitos, que podem ser sempre reduzidas a relações de definições que traduzem essas relações.

As palavras são altamente eficientes para que se possam conhecer relações entre os objetos. Ou seja são capazes de traduzir reconhecimento sobre preposições de verificar as suas relações e traduzi-las por relações lexicais.

Essa foi uma vantagem evolutiva que representam um domínio crescente da espécie humana sobre o mundo exterior e que permite a sua expansão e sobrevivência. Mas, por outro lado, as significações que não se ajustam facilmente a significações verbais, escapam facilmente dos processos de tradução. Neste caso os modos de comunicação das coisas que se passam sem palavras viram objetos opacos. É como se a realidade ficasse opaca para os observadores.

A linguagem é simultaneamente um fim e um meio. Temos que admitir a sua eficiência progressiva como meio, ao mesmo tempo que temos que reconhecer a sua relativa ineficiência como fim. Se nos retivermos apenas no pensamento sobre as palavras.

A questão é que pensamos sobre palavras. E as palavras dominantes são as palavras mais difundidas, o que leva a que se ignore o que não se vê. A obsessiva necessidade da sociedade de transformar a sua realidade exterior terá provavelmente como razão a vontade de adequar a natureza exterior à ordem das palavras da razão. Isso leva à criação dum mundo artificial.

A linguagem é contudo um meio muito eficaz. É a linguagem que permite criar a criação e a identidade nas comunidades. É a linguagem que permite a criação de blocos de complexidade crescente. A possibilidade que temos de entender as nossas limitações cognitivas, procurando conhecer apenas através da linguagem simbólica, é provavelmente um dos resultados dessa consciência da complexidade.

A nossa modernidade beneficiou duma aquisição de conhecimentos técnicos e científicos abundantes. O olhar científico resulta duma interação alargada e profunda sobre a natureza, recorrendo a instrumentos, que permitiram a criação de novas linguagens, inventos de alta precisão e grande sofisticação. O primado das linguagens verbais sobre as linguagens visuais não facilitou a boa compreensão de que é necessário intensificar a comunicação entre os grandes domínios do conhecimento e da experimentação.

Hoje os processos de digitalização das imagens permitem-nos começar a trabalhar os seus algoritmos e a trabalhar as linguagem de forma simbólica. A linguagem humana sempre foi simbólica. A introdução da escrita, que fixa o fonema, retirou parte do simbolismo. Não faz hoje sentido continuar a manter isoladamente a ciência e a arte. Sem dúvida que o conhecimento do mundo pela ciência é uma parte importante dos instrumentos que dispomos. Mas vale a pena procurar novas formas de conhecimento a partir a tematização de novos valores estéticos. A ideia é ligar os projetos de representação da ciência e da estética, na busca da recriação da linguagem.